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Cidades
13/02/2010 - 01:00

Adultos voltam aos tempos de criança


Eles são os mais 'novos' vendedores de picolés pelas ruas


IPATINGA - Quem nunca ouviu os gritos de “Olha o picolé!”, “Olha o sorvete!” que as crianças bradavam pelas ruas para realizar suas vendas? Essa era a forma encontrada por muitos meninos para incrementar a saída de sua mercadoria. Aliás, um sem número de adultos hoje ainda contam com orgulho que um dia foram vendedores de picolés. Mas o tempo passou, as estruturas sociais foram transformadas e, nos nossos dias, é muito mais difícil encontrar crianças empurrando um carrinho de sorvetes. Não que eles tenham desistido inteiramente da atividade, mas as restrições impostas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente deram uma guinada radical no perfil das pessoas ocupadas com o serviço. Atualmente, quem faz esse trabalho são os mais velhos.


Em geral, os vendedores de picolés, hoje, são idosos que optaram pelo trabalho autônomo, como forma de complementar a aposentadoria. Mas há também aqueles que têm na atividade a sua única fonte de renda. Um exemplo desses ‘novos’ vendedores é Maria Ferreira, 30 anos, que escolheu ser uma profissional autônoma. Ela vende picolés e água de coco na esquina da Avenida 28 de Abril com a Rua Mariana, no Centro de Ipatinga, e chega a faturar cerca de R$ 600 por mês. O comércio de picolés começou há apenas três meses, mas a venda de água de coco é realizada há oito anos por Maria. Antes de trabalhar por conta própria no centro da cidade, a vendedora tinha um emprego fixo. “Eu trabalhava numa churrascaria como saladeira. Mas vender meus produtos aqui é bem mais lucrativo. Ganho muito melhor trabalhando por conta própria do que antes”, contou Maria. A respeito da rotina intensa de trabalho, a vendedora afirmou ainda preferir a vida de autônoma a ter um emprego fixo. “É cansativo, pois trabalho de segunda a segunda. Afinal, a gente faz no verão para comer no inverno. Mas prefiro mil vezes ser vendedora a ser fichada. Aqui faço meu horário, não tenho patrão e consigo lucrar muito mais”, afirmou. 


Lairto Martins

Olício era ajudante de pedreiro, segundo ele uma atividade “muito pesada e cansativa”
Outro que também optou pelo trabalho de vendedor foi Olício Rodrigues, 52 anos. Há três anos ele trocou o emprego de ajudante de pedreiro para vender picolés. “Prefiro esse serviço a trabalhar em obras. Aqui é muito mais tranqüilo. Trabalhar como ajudante é muito pesado e cansativo”, contou Olício. O autônomo vende cerca de 40 picolés por dia na Praça José Júlio da Costa, também no Centro de Ipatinga. “Só trocaria esse trabalho por um emprego com carteira assinada, porque assim teria benefícios e direitos que não tenho como autônomo. Mas se não for isso... não troco meu serviço por nada. Em qualquer outro lugar eu ganharia apenas um salário mínimo, e vendendo picolés eu chego a receber R$ 900 por mês”, explicou Olício, deixando claro que gosta da nova profissão: “Não tenho problema nenhum em vender picolés. Gosto desse lugar, de ver o movimento e as pessoas”, disse o vendedor.




Lairto Martins

Wagner, hoje vendendo picolés diante da Câmara, trabalhava antes em um supermercado de Vargem Alegre
 
90 picolés por dia 

Assim como Maria e Olício, a venda de picolés também foi uma escolha para o vargem-alegrense Wagner Sodré, de 38 anos. Morando há cerca de dez anos em Ipatinga, essa foi sua opção de trabalho desde que chegou à cidade. “Em Vargem Alegre eu trabalhava em um supermercado e não ganhava muito bem, mas aqui eu escolhi vender picolés e ganho bem mais com esse serviço. Trabalho de segunda a segunda e recebo, em média, R$ 900 por mês. É com esse dinheiro que eu faço a despesa da minha casa”, contou Wagner, que vende cerca de 90 picolés por dia em um ponto de ônibus em frente à Câmara Municipal de Ipatinga. “Gosto muito desse trabalho, aqui conheço muita gente e tenho a oportunidade de conversar mais com as pessoas. Nesse serviço eu aprendo cada dia mais a viver”, falou o vendedor, explicando que o trabalho não é só uma obrigação, mas também uma maneira de se divertir e de aprender a conviver com as outras pessoas. “Depois que passei a comercializar picolés eu pude fazer minha despesa e adquirir coisas que antes não era fácil comprar, pela falta de dinheiro. Hoje consigo pagar todas as minhas contas e ter o que eu quero e preciso, como o meu tanquinho e meu aparelho de som, por exemplo”, destacou Wagner. 



Lairto Martins

O ex-carpinteiro José Gomes entrou para o ramo depois de se aposentar, há dez anos
Complemento da aposentadoria

Enquanto esses vendedores têm o comércio de picolés como única fonte de renda, José Gomes, 74, como tantos outros na mesma condição, usa o dinheiro para complementar sua aposentadoria. “Comecei a trabalhar depois que me aposentei como carpinteiro, há dez anos. Vendendo picolés eu chego a ganhar R$ 400 por mês. Esse dinheiro é bom para completar o salário da minha aposentadoria. Com ele eu consigo pagar minhas despesas com mais tranqüilidade”, contou José. “Eu gosto desse trabalho, é muito melhor do que ficar à toa em casa. Sem contar que além de eu ganhar um troquinho também me divirto”, entregou o aposentado, mostrando que gosta do movimento da cidade e do convívio com os clientes. 




Distribuidoras confessam ter abolido uso de menores por questões legais


Encontrar crianças vendendo picolés é cada vez mais raro, devido às restrições impostas ao trabalho infantil, como o Estatuto da Criança e do Adolescente criado em 1990, que proíbe o trabalho de crianças menores de 14 anos, priorizando dessa maneira a educação desses meninos e meninas. Por isso muitas distribuidoras se negam a entregar seus carrinhos de sorvetes para crianças. “Eu não trabalho com crianças aqui, só entrego os carrinhos para maiores de idade”, afirmou Jussara Valadares, dona da distribuidora Boachá do Bairro Veneza. “Algumas distribuidoras aceitam menores, isso vai de cada um, mas eu optei em não trabalhar com eles”, completou Jussara. 


Outro que também não trabalha com menores de idade é Célio Marcos, dono da distribuidora Skimone, também no Bairro Veneza. “Eu não entrego os carrinhos para crianças por medo do que pode acontecer a elas, como o risco de serem roubadas e também pelo estrago que muitas delas fazem com os carrinhos”, explicou Célio. 


Mas, apesar de não ser tão freqüente como antes, ainda existem crianças vendendo picolés pelas ruas. De acordo com o Conselho Tutelar de Ipatinga, essa prática é proibida por lei, mas pode ser liberada desde que haja uma autorização dos pais. “Essa questão de crianças venderem picolés pode gerar um problema para a distribuidora de sorvetes com o Ministério do Trabalho, por exemplo. Mas se houver uma declaração dos pais autorizando o filho a trabalhar, não há esse risco”, explicou o Conselheiro Tutelar Élcio Nunes de Morais. A declaração apontada pelo Conselheiro deve ser entregue ao dono do estabelecimento, deixando claro que os pais permitem que seus filhos trabalhem. De acordo com Élcio, a decisão de proibir ou não esse tipo de trabalho é de cada conselheiro, mas se houver essa permissão não há problemas, já que os pais têm autoridade sobre a criança. “Muitos meninos ficam sem ter o que fazer durante o dia e boa parte deles não vive em boas condições financeiras. Não vejo problema elas quererem trabalhar para ajudar os pais, desde que seja com a permissão deles. É melhor a criança ter uma atividade onde consiga ganhar o seu dinheiro de uma forma honesta do que ficar sem o que fazer, correndo o risco de se envolver em más companhias e com atividades ilícitas”, afirmou Élcio, mostrando que o Conselho Tutelar pode ser maleável em relação a essa questão, desde que esse tipo de trabalho não prejudique a criança e nem sua rotina de estudos. 


Um exemplo disso é Andre Luís, de 14 anos. Ele aproveitou o período de férias na escola para vender picolés pela cidade. “Eu não tinha nada para fazer em casa. Um colega que já vendia sorvetes me chamou e eu aceitei na hora. Gosto muito desse trabalho e estou lucrando bastante”, explicou o menino, deixando claro que o serviço não é pesado e nem atrapalha sua rotina. “Meus pais me deixaram vender os picolés. Além disso, eu posso ajudar o meu irmãozinho de dois anos. Ele tem um problema no olho e está precisando fazer uma cirurgia. Com o dinheiro que eu ganho aqui posso ajudá-lo”, contou o menino.

 

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